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10.28.2008

Perspectivas

Os candidatos à Casa Branca têm, regra geral, a mesma mensagem em relação à China, prometendo uma política mais dura e medidas mais restritivas para proteger os empregos dos trabalhadores norte-americanos, como salientou Michael Roskin, professor de Ciências Políticas, num seminário realizado em Macau.
Mas terminada a campanha eleitoral, a realidade impõe-se e alguém se encarrega de explicar ao novo presidente o peso que o investimento e as importações chinesas têm, na economia dos Estados Unidos, e as consequências de uma retracção no investimento.
Fenómeno idêntico deve verificar-se em Pequim, embora com menos regularidade. Cada vez que uma nova equipa dirigente chega ao poder tem que se confrontar com o facto de o seu principal parceiro económico ser, ao mesmo tempo, o seu maior adversário, em termos ideológicos e geo-estratégicos.
A política de abertura económica ao exterior criou uma economia de mercado na China que, não obstante as suas características específicas, se rege pelas mesmas leis da oferta e procura. Há alguns anos, os Estados Unidos não se podiam dar ao luxo de prescindir dos produtos chineses, mais baratos, sob risco de sobrecarregar a bolsa dos consumidores. Hoje, a presença do capital chinês já se faz sentir no mercado financeiro americano e, curiosamente, é até considerado um factor que pode ajudar à sua estabilização.
Acima de tudo, as estreitas relações comerciais e o peso que cada um dos países representa para a economia do outro, obrigam a que escolham a via do diálogo, para resolver eventuais diferendos.
Diz-se, nos Estados Unidos, que a política faz estranhos companheiros de cama. A economia, pelos vistos, também dá origem a insólitas parcerias.

Paulo Reis

Eleição para Chefe do Executivo’2009 - II

"Quem é Quem" na corrida à sucessão

Bruce Kwong

Dentro de 14 meses o Chefe do Executivo, Edmund Ho, completará o seu segundo e último mandato. O seu sucessor será anunciado em Julho ou Agosto do próximo ano, mas muito antes dessa data o olhar do público - e dos outros políticos - estará voltado para os possíveis candidatos. Todas as atenções estarão centradas no desenrolar do processo de selecção, em especial no passado político, ideologia, experiência administrativa, e estilo de governação de cada possível sucessor. À medida que a sua capacidade efectiva de governação se for apagando, à entrada de 2009, o governo de Edmund Ho irá gradualmente adoptando uma postura de esperar para ver. Quem se seguirá como CE? Será esta a questão mais relevante, tanto para o governo central como para os cidadãos de Macau.
A escolha do novo CE é uma matéria que respeita não só ao Comité de Selecção, mas também ao governo central e à Lei Básica. Os candidatos que pretenderem qualificar-se para uma fase de indigitação terão de ser, em princípio, apoiados pelo governo Central e bem aceites pela população (ser apoiado, deve aqui ser entendido como "endossado").
As primeiras eleições para os Chefes de Executivo de Hong Kong e Macau revelaram que o critério do governo Central para endossar um candidato foi este possuir sólidas ligações familiares a personalidades chave na China, experiência de serviço no Conselho Executivo e boas relações de amizade com os líderes chineses.
Embora nas segundas eleições dos CE de Macau e Hong Kong esta política se tenha mantido inalterada, desta vez o mecanismo pode já não ser válido, caso exista uma mudança no núcleo de liderança na China.
Dito isto, e embora os novos líderes chineses Hu-Wen tendam a ser mais realistas e pragmáticos - uma tendência que se pode observar desde a pneumonia atípica, aos vários escândalos de corrupção massiva dos últimos anos, ao nível dos membros seniores do partido - uma mudança ao nível da liderança do governo central, não implica uma mudança fundamental no processo de selecção do Chefe do Executivo, sendo no entanto de esperar alguma alteração.
Para conseguir combinar o pragmatismo político da nova liderança com a prática rígida dos princípios do partido, o novo CE deverá preencher alguns pré-requisitos: em primeiro lugar deverá ser uma individualidade de grande confiança do governo central; idealmente terá mesmo passado por um processo de escrutínio sobre a sua lealdade e atitude politicamente correcta.
Em segundo lugar deve possuir um alto índice de popularidade, significando que terá de ser universalmente aceite pelos seus constituintes.
Em terceiro lugar deverá ter um sólida formação académica providenciada, de preferência desde a infância, por instituições ligadas à China, possuindo ainda um certificado universitário de origem estrangeira indicador da sua visão do mundo.
Em quarto lugar, deverá ter ligações fortes a organizações políticas governamentais da China - quanto mais alto o nível governamental, maiores as hipóteses de ser seleccionado.
Em quinto lugar, deve ser descomprometido em relação ao sector dos negócios, constituindo um factor negativo ter ligações próximas aos grandes magnatas do mundo empresarial.
Em sexto lugar deve possuir comprovadas capacidades de gestão no sector público. Sétimo e mais importante, deve ter uma história pessoal limpa e transparente, garantia de um mandato sem escândalos.
Tendo em conta estes pré-requisitos, os qualificativos para CE podem ser agrupados em quatro elementos principais, a saber: confiança política, popularidade local, capacidade administrativa e um passado limpo.
Quanto ao primeiro elemento, será mais fácil ao governo Central encontrar um candidato de confiança, avaliando a sua ideologia política, se este ocupar uma posição oficial no sistema político do Continente, como por exemplo se for membro da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês ou da Assembleia Nacional Popular.
Em relação ao segundo elemento, a popularidade local pode ser testada através de inquéritos regulares, o que não é prática usual em Macau. A melhor forma de um candidato adquirir popularidade é ir ganhando o máximo de exposição pública que puder, quer liderando uma qualquer associação social, quer patrocinando actividades comunitárias, quer participando em acções de caridade, quer ainda mantendo uma boa relação com a imprensa. Qualquer um destes objectivos não são difíceis de atingir se o candidato estiver disposto a neles investir os seus recursos.
Quanto ao terceiro elemento, a melhor forma de demonstrar capacidade administrativa é ocupando um lugar no gabinete político do governo. Este lugar tanto pode ter a forma de serviço público, como de nomeação para membro do Conselho Executivo. A experiência do antigo CE de Hong Kong, Tung Chee Wa, e do actual CE de Macau, Edmund Ho, como membros do Conselho Executivo e Assembleia Legislativa antes de serem Chefes do Executivo lança o seguinte precedente: o candidato ideal pode provir das fileiras desses orgãos políticos da RAEM mesmo que nunca tenha sido um alto responsável da função pública. No entanto, possuir um currículo nas altas patentes do funcionalismo público, como acontece com o actual Chefe do Executivo de Hong Kong, Donald Tsang, será certamente uma vantagem.
O quarto elemento é crucial, já que a luta contra a corrupção constitui um dos núcleos duros da política do governo Hu-Wen. Quem quiser receber a benção do governo central deve essencialmente ser capaz de demonstrar uma capacidade de liderar de forma limpa e incorrupta. Para preencher esta premissa, qualquer candidato pertencente ao sector empresarial terá de fazer um esforço suplementar para conseguir convencer da sua imparcialidade, integridade e crédito.
Ter um historial como funcionário público ou em actividades comunitárias pode ser favorável, já ser político ou empresário não constitui vantagem na campanha para ocupar a cadeira de Chefe do Executivo.
Estes critérios de selecção podem ser facilmente aplicados em retrospectiva na explicação das nomeações tanto do antigo, como dos actuais CE de Hong Kong e Macau. Tendo como bons estes pré-requisitos na explicação da escolha do CE ideal, por parte do governo central, podemos usá-los para avaliar os seguintes eventuais candidatos a CE, na campanha eleitoral de 2009.

José Chui Sai-peng foi visto como um dos mais prováveis sucessores de Ho, sobretudo antes do início de 2007, altura em que a sua popularidade começou a decrescer. Pertencente à elite local, formou-se em engenharia nos EUA. Foi nomeado para diversos cargos na China, entre os quais o de membro do CCPCC de Cantão, e o de membro da ANP. Faz parte de organizações chave locais, entre as quais a Associação Comercial de Macau, e é deputado nomeado à Assembleia Legislativa da RAEM. Apesar disso, Chui Sai-peng esteve envolvido numa série de projectos de construção, incluindo o projecto da Praça do Tap Seac e outros, durante a passagem de Ao Man Long pelo governo. Talvez em virtude de um passado familiar proeminente e da sua reputação profissional, foi visto durante muito tempo como um dos mais prováveis sucessores de Ho em 2009. No entanto a existência de uma rede invisível de subornos na área da construção e dos projectos de engenharia, notabilizada pelo escândalo à volta de Ao Man Long, minaram a sua popularidade e carisma pessoal a ponto de não se poder falar já dele como candidato provável, nem sequer como principal candidato a uma surpresa no processo de selecção.
Na realidade, as expectativas em relação à sua possível candidatura podem ter sido apenas um verdadeiro mal-entendido, já que ele apenas reúne um pequeno conjunto de pré-requisitos.

Ho Iat-seng, com um perfil extremamente discreto na arena política, é agora considerado uma das apostas mais seguras para a eleição de 2009.
Nasceu em Macau e recebeu formação superior na China, já para não falar da sua nomeação como membro do Comité Permanente da Assembleia Nacional Popular, o que representa um sinal positivo particularmente significativo por parte do governo Central.
Tal como acontece com Edmund Ho e Tung Chee Hwa, diz-se que o seu pai desempenhou um papel importante na China Comunista, em especial durante o período da política de isolamento, o que ajudou a sua família a criar uma relação especial com o governo central. Ho Iat-seng é também membro do Conselho Executivo o que lhe possibilita ganhar visibilidade e acumular experiência governativa. O seu low profile dá-lhe actualmente uma vantagem especial: torna-se mais difícil ter "má imprensa".
A sua única desvantagem são as ligações ao sector empresarial. É aí que reside a incerteza do seu futuro.

Cheong U, Comissário Contra a Corrupção, pode ser o candidato revelação na eleição de 2009. Embora não reúna todos os pré-requisitos, a sua carreira como funcionário público, uma imagem limpa, sem ligações ao sector dos negócios e o facto de estar ligado a uma instituição pública possuidora de boa reputação, quando comparada com outras, a par da prisão de Ao Man Long e família, que resultou num conjunto de condenações judiciais sem precedentes – tudo isso tem feito subir o seu crédito, tanto junto do governo central como da opinião pública.
Para Pequim, Cheong U pode ser a pessoa mais indicada para assegurar os princípios de um governo limpo e tolerância zero na corrupção, e a formação como funcionário público e uma reputação de lealdade, seriam garantias da implementação das políticas do governo central. Os seus conhecimentos limitados de gestão da indústria do jogo não afectarão as suas possibilidades de candidatura já que, como no caso de Ho, o governo central dar-lhe-ia instruções sobre como resolver os principais problemas.

Ho Chio Meng, a sua nomeação, após a transferência do exercício de soberania, para Procurador Geral do Ministério Público e o cargo de Vice-Alto Comissário contra a Corrupção e a Ilegalidade Administrativa ocupado antes daquela data, fazem dele um candidato com hipoteses num cenário pós-processo Ao Man Long.
É possível que a opinião pública deseje um CE justo e neutral, capaz de inverter uma percepção notória de corrupção existente na comunidade. No entanto, o seu passado judicial e um insuficiente "apoio" vindo do Norte, diminuem as suas hipóteses de eleição. Para além disso, a falta de pré-requisitos a nível do seu passado pessoal prejudica também a possibilidade de uma candidatura.

Sam Hou Fai, Presidente do Tribunal de Última Instância, é outro nome que subitamente surgiu na ribalta depois do caso Ao Man Long. No entanto, o seu currículo pessoal não preenche igualmente os pré-requisitos e é ainda demasiado jovem e inexperiente na arena política. Mais do que isso, no caso Ao Man Long deixou uma série de assuntos controversos pendentes que tê sido muito debatidos pela opinião pública, o que teve efeitos negativos sobre a imagem de imparcialidade que a comunidade reclama para o detentor do cargo.

Fernando Chui Sai-on é secretário para os Assuntos Sociais e Cultura desde a transferência de administração e são fortes hipóteses de vir a candidatar-se. Talvez os seus laços familiares e a educação numa universidade americana contribuam para que isso aconteça.
Embora a sua história familiar seja bastante semelhante à de Chui Sai-peng, a sua prestação a nível da economia, jogo e sociedade política não lhe dá qualquer vantagem competitiva.

É curioso que tanto Francis Tam, o secretário para a Economia e Finanças, como Florinda Chan, secretária para a Administração e Justiça, estejam também na lista de possíveis candidatos. Parece indicar que o próximo CE deve vir das altas esferas do funcionalismo público, mas, em primeiro lugar, estes nomes não possuem os pré-requisitos, e em segundo lugar falta-lhes excelência de desempenho e popularidade. Observadores políticos ficariam surpreendidos se estes nomes recolhessem o mínimo de nomeações necessário.

Desta análise dos candidatos pode facilmente depreender-se a pobreza da liderança política em Macau. Isso pode dever-se ao isolamento de séculos vivido pela população de Macau e do facto de possuir uma cultura fracamente integrada a nível político e social, que afasta a população das preocupações sociais, deixando-a com um sentimento de impotência face à realidade.
Além disso, os esforços conjuntos envidados desde os anos 60 pelas associações patrióticas tornaram a população de Macau obediente aos seus patronos, pouco reivindicativa e sempre pronta a seguir sem contestar as orientações vindas de cima.
É ridículo constatar que a população local só consiga indicar nomes para possíveis CE em função da sua exposição pública e que quase todos os nomes indicados estejam ligados ao exercício de cargos públicos.
Também preocupante é o entendimento de que o próximo CE vai ter maiores dificuldades no exercício do cargo, uma vez que a população de Macau já não são os cidadãos obedientes que eram sob a administração portuguesa.
Os protestos frequentes que se registaram nos últimos anos, os conflitos entre os agentes da indústria do jogo e o contínuo aumento da exigência no funcionalismo público alertaram Pequim para a necessidade do reforço da eficácia do governo de Macau. Se o terceiro CE não estiver à altura das novas circunstâncias, o mais provável é que tenha que se demitir ou ser afastado uma vez finda a presidência de Hu Jintao.

Bruce Kwong é Professor Assistente no Departamento de Administração da Universidade de Macau.

Eleição para Chefe do Executivo’2009 - I

Diga de sua justiça!

Dentro de poucos meses, um Comité de Selecção composto por 300 membros vai eleger o próximo Chefe do Executivo, a pessoa que vai suceder a Edmund Ho à frente dos destinos da Região Administrativa Especial. O processo eleitoral será em tudo semelhante ao vigente há 10 anos e há cinco, quando Edmund Ho foi eleito pela primeira vez e depois reeleito. Nesta área fundamento do desenvolvimento politico da RAEM, a evolução foi zero na primeira década desde a transferência de administração.
O sistema eleitoral para a escolha do Chefe do Executivo é objecto de grande controvérsia nas esferas politicas da RAEM. Se bem que hoje já muito poucas vozes se atrevam a colocar completamente de lado a opção futura pelo sufrágio directo e universal na eleição do CE, a verdade é que o esforço das forças pró-democracia no sentido de uma rápida evolução politica é travado pela percepção ainda muito generalizada de que o eleitorado de Macau ainda não está suficientemente maduro para eleger todos os seus líderes, para além de não estar ainda completamente ganha a batalha contra a corrupção e fraude eleitorais.
É hoje óbvio que não se conseguirá facilmente construir um consenso quanto ao momento mais indicado para a introdução de reformas políticas profundas, nem mesmo existindo já em Hong Kong, a título de exemplo, um mapa para a democracia razoavelmente delineado.
Mas significa isso que os residentes locais não possam ou não devam ter algo a dizer sobre a eleição do Chefe do Executivo? Pensamos que não. Os residentes locais podem não ter o direito de votar, mas têm o direito de expressar livremente a sua opinião sobre quem pensam reunir melhores condições para o exercício do cargo.
A liberdade de expressão é um direito fundamental protegido tanto pela Lei Básica como pelo Pacto dos Direitos Civis e Políticos das Nações Unidas, também em vigor em Macau. E sem ser exercida, a liberdade de expressão perde todo o sentido.
Daí que o jornal PONTO FINAL se associe à revista "Macau Closer" no lançamento de uma sondagem de opinião na internet sobre a personalidade melhor colocada para substituir Edmund Ho. Se acreditamos todos que a opinião pública é um elemento essencial para a boa governação, por que não começar por fazer ouvir a sua voz na mais importante escolha para a constituição de um bom governo?
Convidamos por isso os nossos leitores a visitarem a edição online da revista "Macau Closer" e aí depositarem o seu voto perante um conjunto de oito possíveis candidatos, bem como sugestões de outros nomes ou comentários que queiram fazer sobre o processo de selecção. As oito personalidades constantes desta sondagem são aquelas cujos nomes mais têm vindo a ser referidos por observadores políticos da RAEM, como salienta o professor Bruce Kwong, da Universidade de Macau, no artigo que publicamos nestas páginas.
Em www.macaucloser.com terá acesso à sondagem em três diferentes línguas: inglês, chinês e português. A votação vai prolongar-se pelos próximos meses, procurando-se assim contribuir para o debate público em torno de uma questão vital para o futuro de Macau.

Seminário sobre as eleições norte-americanas na Universidade de Macau

Obama, a cor da pele e os eleitores mentirosos

As presidenciais norte-americanas do próximo mês podem ter consequências importantes para a ciência política. Vai ser testado pela primeira vez, a nível nacional, o grau de sinceridade dos eleitores em relação aos preconceitos raciais. Isto num momento em que a economia preocupa e o país se encontra dividido.

Isabel Castro

É um teste único ao grau de honestidade dos eleitores em relação à tendência de voto manifestada nas sondagens. Pela primeira vez a nível nacional, os académicos das Ciências Políticas vão ter a oportunidade de perceber se a América continua a ser afectada por preconceitos raciais. Barack Obama, o primeiro candidato negro a presidente dos EUA, tem vindo a distanciar-se do republicano John McCain. Resta saber se esta margem confortável se traduzirá em votos reais no próximo dia 4 de Novembro.
A este fenómeno da discrepância entre sondagens e resultados das eleições quando, na corrida, está um candidato “afro-americano”, chama-se “efeito Bradley”. A questão foi abordada na passada sexta-feira por Michael Roskin, professor de Ciências Políticas, orador de um seminário sobre as eleições norte-americanas e as suas especificidades.
“Julgo que o efeito Bradley ainda está vivo e a liderança de Obama nas sondagens, com cinco por cento ou mais, irá desaparecer no dia das eleições”, afirma Roskin. “A questão racial continua a ser forte nos Estados Unidos. Muitos americanos continuam a ter sentimentos racistas, uns de forma inconsciente, sendo que outros preferem não falar sobre o assunto”, explica o professor. “Mas existe de forma enraizada e é esta a origem do efeito Bradley.”
O conceito surgiu em 1982, ano em que o “afro-americano” Tom Bradley, à altura “mayor” de Los Angeles, concorreu a Governador da Califórnia, contra o republicano branco George Deukmejian. As sondagens dos dias anteriores às eleições e mesmo as feitas à boca das urnas davam a vitória confortável a Bradley. No entanto, o democrata perdeu. Estudos posteriores apontam a razão principal: muitas das respostas dadas nos inquéritos sobre o sentido de voto, especialmente pelos indecisos, foram condicionadas pela noção do que é politicamente correcto. No momento do voto secreto, finda a necessidade de pruridos de tal ordem.
As grandes preocupações em relação à economia poderão dissipar o efeito Bradley, alerta Michael Roskin. “E por isso é que será um teste tão interessante. O efeito Bradley aplica-se essencialmente no contexto dos valores não económicos”, ou seja, quando o eleitor escolhe o candidato mais pelos valores que defende (como a importância da família ou o posicionamento em relação ao aborto) e menos pela relevância que dá aos assuntos de índole económica.
Numa campanha que adquiriu contornos e prioridades distintas desde que a crise financeira começou a estar na ordem do dia, com assuntos como a presença no Iraque a serem menos abordados, a questão reside agora no grau de “susto” do eleitorado. “Tudo dependerá do quão assustados vão estar os americanos no dia das eleições em relação aos seus empregos, poupanças e pensões de reforma. Talvez isso seja suficiente para dissipar o efeito Bradley”, refere o professor de Ciências Políticas.

A China e a mudança de discurso

No actual contexto económico, o candidato democrata sai favorecido. “Quanto pior estiver a situação económica, melhor será para Obama”, constata Roskin. “Repare-se, contudo, que ele tem muito cuidado em mostrar-se optimista. É uma regra das eleições norte-americanas: o vencedor é sempre o candidato mais optimista, aquele que diz que as coisas vão melhorar, que é como quem diz, é ele que as vai tornar melhores.”
Durante o seminário da Universidade de Macau, o docente chamou ainda a atenção para outro fenómeno que afecta, neste momento, o país onde nasceu: a grande divisão do eleitorado. Esta oposição extrema não é um bom indicador, considera Michael Roskin. Na curva do eleitorado, a zona central encontra-se dividida numa nova curva. “De certa forma, estamos perante uma situação como a que se vivia durante a guerra civil espanhola e os tempos de Franco”, compara o professor. “Há uma bipolarização grande que faz com que metade da América nem sequer fale com a outra metade”, ironiza.
É com alguma ironia também que Roskin analisa a postura dos candidatos à presidência norte-americana no que a Pequim diz respeito. “Existe algo muito interessante no que toca às relações com a China: os candidatos eleitos assumem funções dizendo que vão ser duros com Pequim, em questões como a paridade da moeda, protecção da propriedade intelectual, direitos humanos e preparação militar em relação a Taiwan.” Uma verdade que se aplica tanto a republicanos como aos democratas.
“Todos eles prometem intransigência. No entanto, na primeira semana de exercício do mandato, o discurso muda. Alguém lhes explica a quantidade de dinheiro chinês que há nos Estados Unidos e as consequências do desinvestimento.” É uma perspectiva da China “mais interna, menos internacional”. Tendo em conta esta inclinação na postura dos diferentes candidatos e presidentes, as eleições de 4 de Novembro não deverão trazer grandes novidades para as relações sino-americanas, conclui o professor.

Macau e os intelectuais

Entre a “inexperiência” de Barack Obama e a o “feitio duro” de John McCain, Michael Roskin confessa a sua preferência pelo democrata, dizendo ser “o candidato menos mau”. “Obama talvez possa ser inexperiente, mas parece ser uma pessoa calma e ponderada, enquanto McCain é conhecido pelas suas explosões de raiva, o que é assustador tanto do ponto de vista da economia, como das relações internacionais.”
No acto eleitoral do próximo mês, prossegue, será ainda interessante observar um outro efeito - o Palin. “Será que Sarah Palin [candidata à vice-presidência pelo Partido Republicano] vai buscar os votos de muitas mulheres, algumas delas antigas apoiantes de Hillary Clinton? Ou só conseguiu convencer mulheres republicanas conservadoras?”, lança. “As feministas não gostam dela, entendem que os seus valores conservadores vão contra o feminismo. A escolha de Palin poderá ter como efeito algumas mulheres feministas republicanas votarem em Obama”, prevê.
Quanto ao posicionamento político da comunidade norte-americana de Macau, Michael Roskin, residente na RAEM, confessa não ser capaz de traçar um quadro geral acurado. “Os americanos que conheço, especialmente aqui na Universidade, são intelectuais, pelo que são, previsivelmente, pró Obama. Não se trata de uma boa amostra. Acredito que, no caso dos empresários, o cenário seja mais equilibrado.”

Historiador português investiga diáspora macaense em Xangai

A História daqueles que partiram

Um historiador português está a fazer um trabalho de investigação sobre o primeiro grande movimento migratório da comunidade macaense. É uma viagem aos meados do século XIX e a Xangai, numa tentativa de perceber as características da comunidade que lá se instalou e das repercussões para a terra de onde partiu.

Isabel Castro

É uma abordagem da História em que o povo adquire mais importância do que os habituais protagonistas políticos. Mais do que relatos de vitórias e conquistas, são as estórias das pessoas que interessam a Alfredo Gomes Dias, historiador português que se dedica ao estudo de Macau há mais de duas décadas. Depois de uma série de estudos e livros publicados sobre diferentes temas, o investigador está agora no encalço dos movimentos migratórios dos meados do séc. XIX, aqueles que deram origem à diáspora macaense.
“Estou a estudar a primeira fase da diáspora, que corresponde à saída para as regiões mais próximas: Hong Kong e Xangai”, explicou Gomes Dias ao PONTO FINAL. A abordagem é feita nas perspectivas demográfica e social. Embora inclua o movimento migratório para a antiga colónia britânica, o estudo (feito para a tese de doutoramento) analisa detalhadamente a comunidade de Xangai, desde que foi fundada, nos finais de 1840, até à seu término, que aconteceu com a proclamação da República Popular da China, em 1949.
Sobre a metodologia do trabalho, Alfredo Gomes Dias explica que tem “acesso quantitativo às pessoas que emigraram, através dos registos dos consulados”. É a partir destes dados que está “a tentar reconstruir o fluxo migratório, complementado com outras fontes no que toca à descrição das cidades e dos seus recenseamentos”. A tese vai ainda incluir uma análise sobre o impacto que a emigração teve na própria sociedade macaense. “Há fenómenos sociais que ocorreram em Macau na segunda metade do século XIX que têm origem no fenómeno migratório e que, até agora, nunca foram abordados nessa perspectiva”, defende.
A diáspora macaense em Xangai enquanto tema da tese surgiu “um pouco por acaso”, conta. “Inicialmente, a ideia era fazer um estudo centrado no porto de Macau. Comecei a fazer alguma investigação no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), associada às questões da cidade e da demografia”. Durante esta pesquisa, encontrou os livros de registo do consulado de Xangai, “material abundante” sobre a diáspora. E assim decidiu pelo caminho do estudo das emigrações.
Gomes Dias espera ter o trabalho concluído até ao final deste ano. “Estou a terminar a investigação empírica, o levantamento dos dados. A partir de Novembro e complementando com mais algumas leituras, estarei apto para começar a escrever a tese”, explicou, de passagem por Macau.
O trabalho, que está a ser feito no departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, surge na sequência daquela que tem vindo a ser, nos últimos anos, a abordagem do académico: a História Social, a “História das pessoas”. “Esta minha aproximação ao movimento migratório e à diáspora é uma forma de tentar fazer uma História mais aproximada do povo, que muitas vezes é esquecido”, enquadra.
Sobre a disparidade dos factos históricos locais consoante as fontes, o investigador minimiza o problema. “A história tem um lado subjectivo que depende sempre de quem a escreve, quer seja português, chinês ou francês. O que se passa com Macau não é diferente.” A grande dificuldade dos historiadores ocidentais prende-se com o acesso às fontes chinesas, mas até mesmo neste aspecto o cenário tem vindo a melhorar. “Temos cada vez mais acesso a textos escritos por autores chineses, que têm a sua versão, e que nos permite ir aproximando as nossas versões daquilo que é o olhar chinês.”
Professor da Escola Superior de Educação de Lisboa, Alfredo Gomes Dias estudou História na Faculdade de Letras da capital portuguesa. O interesse por Macau surgiu em 1986, época em que o território “estava muito presente nos jornais, por causa do processo das negociações que levaram ao acordo sobre a transferência”. As notícias foram ao encontro da curiosidade que o historiador já tinha sobre Macau. E foi assim que deixou África enquanto tema de investigação e passou a olhar para o Oriente. O primeiro estudo foi dedicado à Guerra do Ópio. “Desde então nunca mais deixei Macau, apenas fui saltando de temas e de estudos.”

Economia pode entrar em recessão

Crise chega a Hong Kong

A economia de Hong Kong pode entrar em recessão no último trimestre deste ano por causa do impacto da crise financeira mundial, segundo economistas citados pelo jornal local "South China Morning Post".
"Existe a possibilidade de um crescimento negativo no quarto trimestre do ano e no primeiro trimestre de 2009, quando Hong Kong poderá entrar em recessão. Não estou optimista", disse o professor de Economia da Universidade de Hong Kong, Stephen Cheung.
No último relatório económico semanal, o Banco da China alertou para o risco de não haver crescimento em Hong Kong nos últimos três meses do ano, e não colocou de parte uma contracção económica.
O analista do banco de Singapura BNS Daniel Chan Po-Ming disse ao jornal que a crise afectará todos os sectores da economia local.
"Enfrentaremos uma queda das exportações, já que Hong Kong é um intermediário entre a Europa e os Estados Unidos, e também a queda do mercado financeiro", afirmou.
Os dados gerais das alfândegas de Hong Kong indicam um balanço preocupante: durante o mês de Agosto, as exportações cresceram apenas 1,9%, quase 10 pontos a menos que em Julho (11,1%).
O próprio Secretário de Finanças do Governo de Hong Kong, John Tsang Chun-wah, advertiu que o encerramento de algumas empresas em Hong Kong é apenas uma consequência do início do "tsunami" causado na ex-colónia britânica por causa da crise financeira mundial.

Pagcor anuncia arranque do projecto "Entertainment City" em 2009

Filipinas apostam nos casinos

As obras de construção de um complexo de casinos e hotéis, previsto para uma zona de aterros ao largo da Baía de Manila, vão arrancar já no início de 2009.

A revelação foi feita pelo presidente da Pagcor, uma empresa de capitais públicos ligada ao sector do jogo, que adiantou que o governo da província de Paranaque deu luz verde ao projecto, depois de verificar os resultados dos estudos de impacto ambiental.
Com um investimento de 15 mil milhões de dólares, a Pagcor espera que os hotéis, parques temáticos, casinos e centros comerciais previstos para o "Entertainment City" possam, na próxima década, tornar as Filipinas num dos destinos mais procurados na Ásia.
"Este projecto irá representar a criação de 400 mil postos de trabalho, incluindo um efeito multiplicador no sector da construção civil em toda a área circundante ao Entertainment City", afirmou Rafael Francisco, citado pela "GamblingCompliance", uma publicação especializada no negócio do jogo.
Contudo, o clima de incerteza provocado pela crise financeira pode abalar o optimismo do presidente da Pagcor, de acordo com a mesma publicação. Recentemente, a queda nas vendas da Arzure, uma empresa japonesa a quem a Pagcor já concedeu uma licença provisória para a construção de um casino e de um hotel com capacidade para 200 quartos, veio lançar dúvidas sobre a viabilidade deste projecto. Já em Julho, o gigante australiano Crown justificara a sua decisão em não investir no "Entertainment City" com a subida dos custos do financiamento bancário.
Mais recentemente, na cimeira da ACE realizada em Singapura, um analista financeiro, citado pela "Gambling Compliance", considerou que a Pagcor estava a confrontar-se com um período de turbulência, com os operadores do sector do jogo a enfrentarem um crescente cepticismo por parte dos financiadores, devido a interrogações sobre a viabilidade de projectos em Macau.
Apesar da joint venture para a exploração de um casino entre a "Alliance Global" e a "Star Cruises" ter garantido um investimento de peso, a Pagcor poderá ter problemas em atrair novos investidores, adianta aquela publicação. Em Singapura, vários participantes na cimeira da ACE referiram que o facto de a Pagcor desempenhar, simultaneamente, o duplo papel de regulador e operador em 13 casinos, nas Filipinas, poderá gerar desconfiança nos principais operadores estrangeiros, nomeadamente junto das empresas norte-americanas do estado do Nevada.

Análises sem melamina

O último lote de análises a produtos alimentares, efectuadas pela Direcção dos Serviços de Saúde e Direcção dos Serviços de Economia, não revelaram quaisquer traços de melamina, de acordo com uma nota divulgada pelo GCS.
Neste décimo lote de produtos - num total de 14 - nenhum deles estava contaminado com o produto químico que afectou cerca de 50 mil crianças, na China.
Até ao passado dia 10 de Outubro, 210 amostras de produtos lácteos ou produtos alimentares contendo leite foram analisados, em Macau, tendo sido detectados níveis de melamina em 21 dessas amostras. No entanto, as quantidades detectadas, de acordo com a mesma nota, estão abaixo dos limites máximos, não constituindo perigo para a saúde pública.

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